Borboleta

KLAMKLAMLE (As Borboletas)



Contam-nos os velhos Vodunos que Aveji-da tem, em seu touboumé, um exército de klamklamle que sobrevoam os mundos e voltam para contar-lhes seus feitos ao mesmo tempo que trazem outras klamklamle que nada mais são do que as almas que ali irão residir.
 
     Dizem que a própria Aveji-da, quando está muito preocupada, se transforma em uma linda klamklam e sai pelos mundos a voar para observar melhor o djenukom  e o aikungumã.
 
    Fá disse a um bakono que sempre que uma Aveji-da recebe uma oferenda, uma klamklam aparece para confirmar a presença dela.
 
     A klamklam é como Aveji-da, ligeira e inconstante.  Uma ligeireza sutil, de espírito viajante.
 
    A klamklam brincando entre as flores é a alma da deusa nos humahuan.  A deusa acompanha o guhê na primeira metade de seu curso visível, até o guhemê.  Em seguida, desce de volta à aikungumã sobe a forma de uma klamklam.
 
    Há uma associação analógica da klamklam e da chama, de suas cores e do bater de suas asas tal qual a duwe de Aveji-da.
 
    Aveji-da, assim como todas as deusas do fogo, associa-se a obsidiana, uma kpe-izó, seu emblema.
 
    Símbolo do fogo solar e diurno, e por essa razão da alma dos achólupêle, a klamklam é também um símbolo do guhê-du, atravessando os mundos subterrâneos durante o seu curso noturno.  É assim, símbolo do fogo ctoniano oculto, ligado a noção de sacrifício, de morte e de ressurreição.  É então a klamklam, atributo das divindades ctonianas, associadas à morte. Ela ilustra, ao mesmo tempo, a analogia alma-borboleta e a passagem do símbolo à imagem.
 
     O homem segue, da vida à morte, o ciclo da klamklam.  Ele é, na sua infância, uma pequena lagarta, uma grande lagarta na sua maturidade; ele se transforma em crisálida na sua velhice; seu túmulo é o casulo de onde sai a sua alma que voa sob a forma de uma klamklam.  A postura de ovos dessa klamklam é a expressão de sua reencarnação.
 
     Dizem os velhos Vodunos:
 
- Ekùs ete jo nhû oku do bochiô na klamklam!
(- A alma que deixa o corpo dos mortos tem a forma de uma borboleta)
 
     Quando uma klamklam aparece no templo dos Voduns, todos saúdam a bela Deusa do degi, dos johon,  e das djizônukon  num só grito "Ahoboboi, mikan Aveji-da!!!".
 
Vocabulário
 
klamklam     - borboleta (pronuncia-se kunlamkunlam)
Klamklamle  - borboletas
Touboumé   - reino
Djenukom    - céu (orum)
aikungumã   - terra (aiye)
Humahuane - guerra, campo de batalha
Guhê            - sol
Guhemê      - meio-dia
Duwe           - dança
Guhê-du      - sol negro
kpe-izó        - pedra de fogo
achólupê     - soldado, guerreiro
achólupêle  - soldados, guerreiros
Oku              - morto, cadáver
Ete               - que
Ekùs            -  alma, egum
jo                 - deixar
Nhû             - corpo físico
Bochiô        -  forma, escultura
Na                -  uma (artigo)
Degi            - ar
Johon         - vento
Mikan          - salve!
djizônukon  - tempestade