
Já havia algum tempo que Bako, o Sol, dava sinais de cansaço...
No começo, os pigmeus não prestaram muita atenção. Talvez estivesse um pouco menos claro, seguramente fazia menos calor que antes, mas, afinal de contas, sempre houve dias menos bonitos que outros, não era motivo para ninguém se apavorar.
Entretanto, depois de uma semana, mesmo os pigmeus mais otimistas tinham que reconhecer que o fenômeno estava continuando de uma forma anormal. Consultaram então o Nzorx, o advinho curandeiro, que foi consultar seu espelho de vidência. O que leu nele não devia ser muito animador, porque apertou as mãos sobre o seu talismã de chifre de antílope, como se quisesse se proteger e proteger sua tribo de uma grande desgraça.
- E então? O que foi que o espelho de vidência revelou? - perguntaram seus irmãos, esperando o pior.
Com um sorriso forçado, o Nzorx quis tranquilizá-los: desde que existia a memória dos homens, nunca o Sol deixara de brilhar. Bako era velho e robusto como o mundo, não havia nenhuma razão para que de repente adoecesse...
- Mas não dá para negar que Bako não anda com um aspecto muito bom - insistiu um pigmeu, com a voz preocupada. - Está tão pálido...
- Só um pouco de cansaço, isso passa.
- E no fim do dia está vermelho, afogueado, como se estivesse sem fôlego!
- Na certa é uma febrezinha, mas não deve ser nada grave.
No entanto, os sintomas preocupantes se multiplicavam: o calor era cada vez menor... a luz enfraquecia a olhos vistos... Bako cada dia deitava-se mais cedo, como se estivesse esmagado pelo peso de um trabalho que ficara pesado demais para ele. Então o pressentimento virou certeza: o estado do Sol piorava de maneira catastrófica.
- Hum... alguma coisa anormal está acontecendo... - murmurou um pigmeu, e depois outro, e mais outro.
- Bako só é a sombra do que era - sussurraram outros.
- E se ele apagasse?
Mal foi formulada, essa idéia lançou o terror nos espíritos. A vida era inconcebível sem Bako para iluminar e aquecer os humanos. Nessa noite, os pigmeus ficaram esperando o alvorecer e tremendo: se o Sol não comparecesse ao encontro, seria simplesmente o fim do mundo.
Como o dia demorava a aparecer! Com um atraso angustiante, o astro levantou-se mais uma vez, mas em que estado! Irreconhecível, lívido, gasto, subia penosamente pelo céu, mal conseguindo dardejar seus grandes raios...
Horrorizados, os pigmeus finalmente o viram desaparecer numa luz crepuscular de muito mau agouro. Desta vez, foi o pânico. O Sol morria no horizonte! Jamais teria a força de subir novamente ao firmamento se sua chama não fosse reavivada. Aliás, nem haveria amanhã, pois com toda certeza o dia não nasceria nunca mais. Era absolutamente indispensável que se tentasse alguma coisa logo, mas o que?
Intimado a encontrar uma solução, já que era o advinho e curandeiro, o pobre Nzrox ergueu as mãos para o Céu, em sinal de impotência.
- Rezemos a Khmvoum... Só ele pode curar Bako.
Khmvoum... À simples evocação do Deus supremo, os pigmeus readquiriram confiança, tão rapidamente quanto haviam se desesperado. Isso mesmo, apenas o Grande Caçador celeste poderia impedir o desastre. Bastava que ele ouvisse o pedido de socorro de seus filhos: tudo voltaria à ordem e...
De repente, uma risada sinistra rasgou o silêncio da noite: era Tore, o espírito da Floresta! Só ele poderia achar graça num momento daqueles... Pouco lhe importava que a luz abandonasse o mundo, ele era um pássaro noturno, um monstro da mata, que se alegrava com as trevas.
- Se a luz não voltar - balbuciou um pigmeu - o ogro Ngoogounogumbar vai devorar nossos filhos...
- E o anão Ogrigwabibikwa vai se transformar em réptil para nos morder no escuro!
Tremendo, os pigmeus dirigiram ao céu um olhar de súplica. Entrecortada pelas risadas de Tore, sua prece subiu ao Céu:
Ó Sol... Ó Sol...
A morte vem, o fim já chega,
O astro cai e morre.
O fogo escurece, a mata fica negra,
A chama vai se apagar, é nossa desgraça!
É nossa desgraça... Oh! Khmvoum!
Do alto do céu, Khmvoum ouviu a voz de seus filhos e siu seu desespero.
Sem perder um minuto, pôs-se a caminho em direção ao Sol. Em sua mão direita, brilhava o Arco-íris. Na esquerda, tinha uma sacola enorme, que lançou sobre os ombros: a colheita do Grande Semeador celeste ia começar...
Khmvoum penetrou nas grandes florestas do Céu. Dirigiu-se para o oriente, lá no fim do mundo, onde normalmente Bako deveria reaparecer. Em sinal de aliança com seu povo, plantou lá o Arco-íris que, de manhã, diria que os belos dias tinham voltado e que não havia mais nada a temer. Depois, com passos decididos, enveredou pela Via Láctea; o caminho todo pavimentado de estrelas.
Khmvoum deteve-se numa região celeste rica em milhões de astros, todos muito brilhantes. Havia tantos, de todo lado, que era só esticar a mão, colhê-los aos punhados e guardá-los na sacola. Bem que as estrelas, assustadas, tentavam fugir, mas não era fácil escapar ao Grande Semeador, e elas logo eram aprisionadas.
Khmvoum calculou o peso da sacola. Já era quase o suficiente, mais um punhado de estrelas e pronto. Unindo o gesto ao pensamento, agarrou um cometa que passava voando e mais duas ou três estrelas cadentes, para completar!
Khmvoum prestou atenção. Por cima da tempestade que rugia lá embaixo, distinguiu o coro de seus filhos desesperados, suplicando:
É nossa desgraça ... Oh! Khmvoum!
A morte já vem, o fim vai chegando,
A chama vai se apagar!
Para tranquilizá-los, encarrega o elefante Gor, o mensageiro celeste que fala na tempestade, de explicar aos pigmeus que o fim do mundo não viria nesse dia. Gor dirigiu a tromba para a Terra, para mandar a mensagem de esperança... Na mesma hora, atingidos por uma chuva diluviana, os pigmeus recitavam sua prece com fervor crescente. O alvorecer já devia estar ali... não restava mais muito tempo para salvar Bako. Então, quando o trovão estourou com sua força assustadora, acreditaram que a hora de seu fim tinha chegado. Mas o Nzorx apontou um dedo inspirado em direção ao céu.
- É a voz de Gor! - exultou, com o rosto encharcado de chuva. - E nos diz que Khmvoum está à cabeceira de Bako.
Khmvoum atravessara o espaço com grandes passadas. Bem a leste do mundo, tinha encontrado o astro moribundo, mais pálido que a Lua, e lançado o conteúdo de sua sacola na fogueira quase extinta do Sol. As estrelas crepitaram, explodiram em centelhas que se transformaram em chamas gigantescas. Bako foi ficando cada vez mais vermelho, como uma brasa incandescente. A chuva de estrelas, que não parava de cair sobre ele, o regenerou. Ele embrasou-se, inflamou-se, reencontrou seu esplendor original. E no oriente houve uma ebulição de calor, uma luz ofuscante!
Lá embaixo na floresta, as risadas cruéis de Tore, o espírito da Floresta, estrangularam-se em sua garganta. A longa noite acabava de ter fim, a hora do grande declínio ainda não chegara.
Saudado pelos pigmeus entusiasmados, o Sol levantou-se no horizonte. Mais brilhante do que nunca, rasgou o manto das trevas, furou as nuvens negras, dissipou os medos, explodiu e resplandeceu no dia nascente.
- Arco-íris! O Arco-íris! - entoaram os pigmeus, encantados, descobrindo o sinal de Khmvoum a leste do céu.
Tu que brilhas no alto bem alto,
Acima da floresta tão grande,
Arco poderoso do Grande Caçador celeste,
Diz a ele que agradecemos!
Não, Bako não se apagaria - não enquanto houvesse estrelas no céu e enquanto Khmvoum velasse sobre seu povo.
Texto - Franck Jouve e Michael Welply
Tradução - Ana Maria Machado