O ESPAÇO SAGRADO Ataliba Fernando
Costa* A sacralização do espaço remonta, é
certo, aos primórdios do aparecimento na Terra dos seres humanos modernos (Homo
sapiens) isso na era Cenozóica, período quaternário.O Homem é considerado como
uma das últimas espécies a surgir no planeta, e na sua curta trajetória sobre a
superfície deste planeta apenas ele possui as ideais condições e capacidade para
agir sobre o meio e manipular objetos, Aguiar ao dissertar sobre as capacidades
humanas afirma que o Homem diferencia-se das demais espécies animais, visto que
só o Homem é dotado de imaginação e inteligência simbólicas.
Trataremos então a seguir de manipulações do Homem sobre o meio, e a
sacralização não só do espaço, mas também do momento, de um certo momento que
capturado e representado pode trazer presságios para um ato ou uma
vida. Comentaremos sobre as mais antigas representações conhecidas,
as gravadas nas paredes das cavernas, representações conhecidas como arte
rupestre; além de muito estudadas em nossos dias, trazem algumas incógnitas que
ainda não foram plenamente elucidadas. Uma delas, refere-se à dificuldade de
precisar a idade desses desenhos. No entanto, alguns pesquisadores afirmam que
desenhos como esses datam de períodos anteriores ao Neolítico. Relevando os
problemas de exatidão da idade dessas representações, a arte rupestre prima por
nos fornecer, como salienta Brézillon, "informações sobre a fauna e o gênero de
vida das populações representadas". Estas formas primitivas de
representação, feitas nas paredes das cavernas, usando de pigmentos extraídos da
natureza e entalhes feitos com ferramentas de pedra, como muitos pesquisadores
como Brézillon, Hauser, Garcia, Motes e outros puderam observar, não tinham
nenhuma intenção ornamental estética, e sim um caráter místico, onde as imagens
ali presentes representavam, para o Homem pré-histórico, amuletos; presságios
positivos em suas empreitadas, uma vez que se encontram em salas ocultas, de
difícil acesso; nunca em lugares expostos à apreciação, como mostra
Hauser. Sobre todo el hecho de que las pinturas estén a menudo
completamente escondidas en rincones inaccesibles y totalmente oscuros de las
cavernas, en los que hubieram podido de ninguna manera ser una "decoración.
Tambien habla contra semejante explicación el hecho de su superposición a la
manera de los palimpsestos, superposición que destruye de antemano toda función
decorativa; esta superposición no era, sin embargo, necesaria, pues el pintor
disponía de espacio suficiente. El amontonamiento de una figura sobre outra
indica claramente que las pinturas no eran creadas com la inteción de
proporcionar a los ojos un goce estético, sino persiguiendo un propósito en el
que lo más importante era que as pinturas estuviesen situadas en ciertas
cavernas y en ciertas partes específicas de las cavernas, indudablemente en
determinados lugares considerados como especialmente convenientes para la
magia. De posse destas afirmações exemplificadas podemos então,
concluir que poderiam ser estes ambientes os primeiros templos, lugares
sacralizados, que manipulados pelo homem estavam prenhes de magia e energia
possibilitadora de presságios positivos. Ainda buscando subsídios nas
informações de Hauser, podemos também dizer que se o templo, ou seja, locais
onde tais imagens eram impressas, o local representado também continha a energia
sagrada, um local sacro santo. Ainda citando Hauser, quando
este disserta sobre os autores das tais pinturas rupestres podemos apreender que
os executores dessas obras deveriam possuir além das posições de caçador e até
mesmo de geógrafo o título de sacerdote, aquele eu distinguia e prendia
mentalmente todas as particularidades de um lugar para assim pender no templo de
seu clã toda a mítica do lugar. l pintor paleolítico era
cazador y debia, como tal, ser um buen observador; debía conocer los animales y
sus características, sus habituales paradas y sus emigraciones a través de las
más leves huellas y rastros; debía tener una vista aguda para distinguir
semejanzas y diferencias. Com essas informações podemos concluir
que as representações primitivas são parte das conquistas do Homem, que lenta e
gradativamente foi se intelectualizando e criando condições de agir sobre o
meio, evoluindo, conseqüentemente, na forma de representar o espaço à sua volta.
Os desenhos impressos pelo Homem primitivo, são representações do espaço no qual
ele age, e, como não poderia deixar de ser, está cheio de elementos emocionais,
um espaço relacionado com as necessidades e interesses do Homem
pré-histórico. Dizer que as câmaras das cavernas utilizadas pelo
homem como templo, seria o primeiro templo seria um pouco incoerente uma vez que
o divino, o sagrado estava, na realidade do outro lado daquelas paredes de
pedra. Concluímos sim, que tais câmaras eram na realidade a captura de espaços
especiais que deviam ser transformados e sacralizados.
Finalizando essa questão da sacralização do espaço podemos afirmar que a
categoria Espaço, Paisagem e até mesmo Lugar (unidade elementar) servem como
pano de fundo para as atividades humanas, portanto o profano e o sagrado
coexistem, e quem transforma e dá caráter profano ou sagrado a um ambiente é o
homem que o manipula ao se bel prazer. Citando HARVEY, quando este fala das
classificações do espaço, este escreve: O espaço não é
nem absoluto, relativo ou relacional em si mesmo, mas pode tornar-se em um ou em
outro, dependendo das circunstâncias. O problema da correta conceituação do
espaço é resolvido através da prática humana em relação a ele. Em outras
palavras, não há respostas filosóficas para questões filosóficas que surgem
sobre natureza do espaço. As respostas estão na prática humana.
* Ataliba Fernando Costa é Geógrafo, licenciado pela
UFJF, com especialização em geografia e Gestão do território – em
curso. AGUIAR, V. T. B. Atlas Geográfico Escolar. Rio Claro: UNESP, 1996.
Tese de Doutorado. P. 95. É o que podemos chamar de arte ou escrita
primitiva e indígena. São motivos geométricos representações zoomorfas e
antropomorfas. BRÉZILLON, Michel. A Arte Rupestre Pós-glacial. IN:
LEROI-GOURHA, A. et al.. Pré História. São Paulo: Pioneira/Edusp, 1981. P.
298-307. HAUSER, Arnold. História Social de la Literatura e la Arte .. p.
29. HARVEY, D. A Justiça Social e a Cidade. São Paulo: Hucitec, 1980, p.
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